Cultura e Comunidades Rurais de Resende Costa
Maristela de Oliveira Peluzi
Quando falamos em cultura nos lembramos de costumes e tradições que fazem parte da nossa história, da nossa vida. Afinal de contas, cultura nada mais é, que o modo de vida de um povo.
Para o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), os símbolos culturais são fundamentais para a organização e coesão de um grupo social. Nos pautando no comentário do célebre pensador, ratificamos a latente necessidade de valorização da cultura de nosso país, de nosso estado, de nossa cidade, de nossas comunidades rurais.
Resende Costa, assim como as inúmeras cidades espalhadas pelos “rincões” deste imenso Brasil, tem a sua cultura própria. Costumes e tradições que começaram a se formar há séculos atrás, quando a cidade que ora, se firmou como produtora de artigos artesanais, era apenas um ponto de passagem para os tropeiros da época. Hoje, nossa “terra”, tem alcançado avanços significativos, se transformando em um lugar cada vez mais agradável para se viver. Por mais, que vejamos melhorias econômicas e sociais , percebemos que os resende-costenses ainda mantém presentes em seus cotidianos elementos culturais herdados de seus antepassados; ainda bem!
O processo cultural é dinâmico, não há como negar, as relações sociais vão se modificando ao passar dos anos, haja vista, o avanço da tecnologia de comunicação que nos faz ter acesso com tanta facilidade, a informações sobre culturas diversas. Mas, cada sociedade tem a sua essência, a sua identidade, e, é isto, que não devamos deixar que se perca.
Pesquisas comprovam que o brasileiro ainda precisa avançar muito na prática de hábitos culturais. Há aqueles que se quer, leem um livro, que não conhecem os museus históricos de suas cidades, que nunca foram a uma sala de cinema, e assim vai. E, com o intuito de valorizar a nossa cultura, a nossa história, que falaremos um pouco sobre os costumes e hábitos de nossas comunidades rurais, que na junção urbano/rural fazem do município de Resende Costa, um lugar singular.
Entretanto, nada melhor, ou, ninguém melhor para falar sobre tal assunto, que os jovens que residem em algumas comunidades rurais. Estudantes, que prestes a concluir o ensino médio no findar de 2011, falaram de forma clara e sutil sobre os hábitos culturais de suas localidades - herdados de geração a geração.
“ No mês de setembro é feita a “ Festa da Primavera”. Já nos meses de junho ou julho é realizada uma “Quadrilha” no Centro Comunitário. Um dos principais pratos daqui, é o frango a molho-pardo. O “orapronobis” também faz parte da nossa culinária. Há algumas pessoas que gostam de saborear o “broto-de-bambu” e a “samambaia”. Com respeito às comemorações religiosas, é celebrada uma missa a cada dois meses, e também festejamos o dia do padroeiro: São José. A nossa cultura sofreu mudanças ao longo do tempo, atualmente as rezas que eram feitas nas casas dos moradores, seguidas de animados leilões já não existem mais.”
Kássia Resende – Comunidade dos Tabuados
“ Eu, Renata , moro no povoado do Cajuru. Na nossa comunidade, são encontradas muitas manifestações culturais, como por exemplo: Festa da Colheita, per-noite da Cavalgada Bolivar de Andrade, Festa de Santo Antônio, Festa do Rosário, Festa de Nossa Senhora Aparecida...Mas, a festa que se tornou marco de nossa gente, é a da “Colheita”, tamanha a fama que alcançou; é considerada uma das melhores da região. Mas, algumas características da festa foram mudando – os carros-de-boi já não desfilam cheios de espigas de milho como antigamente, a maioria passa vazia. Há anos atrás, o som que animava a festa era “mais ou menos”, hoje é um “estouro de bom”.”
Renata Marizete da Silva – Comunidade do Cajuru
“ Na comunidade dos Paulas, os idosos gostam de sertanejo “antigo” – de sua época” – na culinária , o angu e o minguáu- de- couve continuam fazendo sucesso. As festas marcantes são a Festa da Colheita do Milho, realizada em junho, a Semana Santa, onde comemoramos a Paixão de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição; padroeira da comunidade. Na religiosidade há presença do catolicismo de dos evangélicos. A igreja de Nossa Senhora da Conceição é ponto destacável na identificação da comunidade.”
Johnny – Comunidade do Curralinho dos Paulas.
“ Em minha comunidade tem diversas manifestações culturais como a Festa da Colheita, Junina, Festa do Rosário, de São Sebastião, Festa de Nossa Senhora Aparecida e de Nossa Senhora da Soledade, que inclusive é nossa padroeira. Biscoitos diversos, doces e salgados fazem parte da nossa tradição culinária.”
Lígia Luzia dos Santos – Comunidade do Ribeirão
“ No meu povoado, Micaela, nós realizamos uma festa para homenagear nosso padroeiro, Santo Antônio – uma comemoração linda, com fogos, música e muita dança. Há alguns anos atrás, era comum as pessoas se reunirem para poder contar “causos”, tocar sanfona, inventar estórias, fazer versos em ritmo de Folia-de-Reis e, principalmente jogar uma boa partida de truco. Hoje em dia, estas manifestações culturais estão perdendo espaço para festas mais animadas, baladas...Parece que os jovens estão preferindo outro tipo de música, com o passar dos anos, talvez estas manifestações culturais “antigas” de nossa comunidade tendem a desaparecer.”
Wigor José Gouveia da Costa – Comunidade da Micaela
“ Por se tratar de uma localidade pequena, a manifestação cultural de maior relevância é a missa anual no cruzeiro da Comunidade. Logo após, é servido um café-com-biscoito para os moradores e visitantes. É tradição soltar fogos na manhã do dia da missa. O artesanato têxtil vem sendo passado de geração para geração, principalmente entre as mulheres. Outro costume que faz parte da nossa história, são os jogos de futebol realizados aos domingos. Na música, a Folia-de-Reis foi resgatada pelos jovens.”
Juliana Aparecida de Sousa – Comunidade da Boa Vista
“ No mês de junho, acontece no povoado dos Pintos a Festa de São João, sendo o dia 24 dedicado ao santo. Ao meio dia dos domingos é realizado o culto e, em seguida, os jogos de futebol no campo da comunidade. De vez em quando, acontece torneios com a participação de times de outros povoados.
Tatiane Cássia Siqueira – Comunidade dos Pintos
Assim, como em todo lugar, a comunidade onde vivo, apresenta manifestações culturais singulares que a diferencia das demais. Há variados gostos musicais: funk, axé, pop, internacional, eletrônica, sertanejo, principalmente à moda antiga, há também um coral da Igreja. Não há um prato típico da culinária da comunidade. As pessoas gostam de fazer diferentes tipos de doces e biscoitos. Inclusive, há duas mulheres que utilizam a venda dos biscoitos assados em forno artesanal para obter uma renda a mais. As guloseimas são vendidas nas cidades vizinhas: Passa Tempo, Desterro de Entre Rios de Minas, Resende Costa, etc. Há festas que são tradição na comunidade. A festa do carro-de-boi possui 25 anos, realizada no mês de maio, o início é na sexta-feira com a celebração da santa missa. No sábado pela manhã tem o desfile dos carros-de-boi com a entrega das premiações à noite. A praça fica lotada de visitantes e moradores à espera do show, e, é claro, das típicas barracas. No domingo ocorre o concurso de marcha de éguas e cavalos. Ocorre também outra festa que já faz parte de nossa história: o pernoite da cavalgada Bolívar de Andrade, que anualmente, cumpre o trajeto de Passa Tempo à Resende Costa, durante a Exposição Agropecuária de Resende Costa. Também festejamos a festa do padroeiro, Santo Antônio e a Semana Santa. Na sexta-feira santa, há uma tradição que vem sendo passada de geração para geração, e hoje, passo para minha filha; levantamos pela madrugada para irmos até às fazendas, aos retiros de leite, para buscarmos leite para fazermos tachos e mais tachos de doce de leite e arroz. Alguns vão de carro, moto, cavalo ou até mesmo a pé. É uma experiência única! O orvalho da manhã, o sereno ainda da noite, pessoas andam longe, carregam pesos, contam “causos e causos” e cantam músicas. Temos vários grupos religiosos: “ Jovens Unidos em Cristo”, “Grupo dos Cursilhistas”, “Grupo da Melhor Idade”, “Rainha da Paz”, “São Vicente de Paula”, um conselho da igreja e um conselho comunitário. As missas são celebradas duas vezes ao mês, há realização de cultos em todos os domingos e adoração ao Santíssimo Sacramento às quintas-feiras, com participação de dois ou três moradores. É costume após o encerramento dos cultos, os homens irem para a venda ou para a banca de baralho, e as mulheres ficarem nos bancos da praça contando “causos”, colocando a prosa em dia. São organizados animados leilões nas casas dos moradores, para angariar “fundos” para os grupos que citei , como também, para a Semana Santa.Ah! Na noite do sábado de Aleluia, os jovens esperam pela “calada da noite”, para se reunirem na praça, se dividirem em grupos, e sairem para “roubar” objetos pessoais das casas. Depois montamos uma chácara com tudo que conseguimos, e construímos o “Juda” e a “Juda”. No domingo fazemos “pisquinhas”, com os objetos, para todas as pessoas herdarem para assim, queimarmos o Juda e sua esposa. Muitos costumes de minha comunidade foram se perdendo com o tempo, hoje homens já não disputam uma mulher com duelos em versos ou colocam o rádio à pilha e flores nas janelas.”
Gilciana Antônia da Silva Rosa – Comunidade do Cajuru
“ Na minha comunidade, todos os anos temos a Festa da Colheita, por tradição. Foi a primeira festa da região, mas hoje já não atraí tanta gente, como antigamente. Temos também a festa de Nossa Senhora do Rosário, que há tempos atrás, apresentava congadas de vários lugares. Hoje, como o povo quase não procura igreja, a festa está cada vez mais “fraca”, com menos congadas e pessoas.”
Isabela Maria Resende – Comunidade do Ribeirão
“ Na comunidade onde moro, as músicas antigas são as mais pedidas. Se tocar uma música de “hoje”, as pessoas pedem para parar. Quando tem aniversário, fazemos feijoada e churrasco de porco – dizem que a melhor para preparar o churrasco. Há muitas festas na minha região: Festa Junina, Festa do carro-de-boi, Festa da Padroeira, bailes e leilões para beneficiar a festa da Padroeira. Há muitas rezas, missas, o pessoal junta em “peso”. Pode-se dizer que o futebol acabou. Pois muitos que jogavam, ficaram velhos, como é o caso do meu pai e dos meus tios, outros mudaram, outros tem que tirar o leite. Se os jogos acabarem, vai ser ruim, pois é uma oportunidade de rever e fazer amigos.”
Antônio Marcos – Comunidade do Curralinho dos Maias
“ Em minha comunidade, temos o costume de fazer broa de fubá na panela; assada na brasa, doce de goiaba, doce de arroz, de cidra, de chuchu, dentre outros. Uma vez por ano, é celebrada uma missa,logo após há leilão, comes e bebes e muita música caipira. Para ganhar o “pão de cada dia”, mexemos com tecelagem e picamos retalhos.”
Edinalva Resende Silva – Comunidade da Boa Vista
“ Na minha comunidade, o sertanejo é o tipo de música mais ouvido, seja os mais antigos ou os atuais. Adoramos um feijão com arroz. Há a Festa do Rosário e Festa de Nossa Senhora da Soledade. Todo o ano temos torneio de futebol com times de outros lugares da região.”
Leandro Dener – Comunidade do Ribeirão
“Há mais de duas décadas, o povoado do Cajuru é palco de uma das festas mais tradicionais do município de Resende Costa, a Festa da Colheita do Milho, que é ansiosamente esperada pelos moradores desde o início do ano. O tradicional desfile de carros-de-bois , as barraquinhas e a presença de autoridades fazem parte do calendário do evento. Seja com frio, chuva ou sol, pessoas de diversas localidades, inclusive aquelas que residem em outras cidades e têm sua origem no povoado, vêm somente para prestigiar a festa, que é pura tradição!”
Nely Maria Ribeiro – Comunidade do Cajuru
“ Vou falar um pouco da nossa cultura: as comidas típicas são: um arroz com feijão, bolo de fubá, goiabada, dentre outros. As pessoas trabalham com retalho, tecem, sobrevivem do ganho dos produtos artesanais. Todo domingo, ministros da comunidade celebram o culto. Uma vez por mês, o Pároco de Resende Costa celebra uma missa. Há realização de rezas, leilões, para arrecadar dinheiro para a Festa da Colheita e dos “Santos”.”
Malena Silva Reis – Comunidade dos Pintos
Como podemos observar, cada adolescente descreveu de forma objetiva, porém , apaixonada, características culturais de suas comunidades. Há pontos comuns entre elas, como por exemplo, a religiosidade - típica da história de Minas - mas há singularidades que conferem a tais, uma feição ímpar. Interessante notar, que jovens de uma mesma comunidade, mencionaram elementos diferentes, como foi o caso da Gilciana (Cajuru), do Dener e da Isabela( Ribeirão de Santo Antônio), da Edinalva e Juliana ( Boa Vista), Malena e Tatiane (Pintos).
Esta junção de símbolos culturais (religiosidade, culinária, festas...) compõe a história de Resende Costa, a história de Minas Gerais. Afinal de contas, quase todo resende-costense tem sua origem enraizada na zona rural do município: um antigo arraial que fora erguido em cima de uma grande “pedra”, circundado por fazendas bem sedimentadas economicamente.
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